Vacinação lenta no Brasil pode gerar 3ª onda de covid-19 em julho

Igor Juan

27 de abril de 2021
Atualização:28 abr 2021 às 12:16

A nova expectativa do Ministério da Saúde, que agora aponta setembro como mês provável para concluir a imunização de todos os ‘grupos prioritários’, elevou a ansiedade do cidadão comum que não aguenta mais esperar pela vacina contra o coronavírus e trouxe mais preocupação ao meio científico: se a vacinação em massa não ser feita até o termino de 2021, justamente os que compõem a parcela mais frágil, os idosos, correm risco porque não se sabe ainda por quanto tempo a vacina irá protegê-los.

Além disso, a vacinação em passos lentos num país que não consegue fazer isolamento social, pode provocar uma terceira grande onda de mortes por covid-19.

“Esse ritmo lento, que avança de forma muito paulatina para diferentes extratos da população, pode levar à ocorrência de três problemas: o primeiro é o surgimento de novas variantes, pois quanto mais o vírus se dissemina livremente em indivíduos não vacinados, maior a probabilidade de aparecimento de variantes, inclusive algumas não suscetíveis à vacina. Segundo é a probabilidade de uma terceira onda de contágio e mortes nos lugares onde já houve uma primeira e uma segunda onda. É uma possibilidade real, como aconteceu na Europa.

Se vacinássemos a população antes de isso acontecer, evitaríamos muitas mortes. E tem uma terceira consequência possível: como a gente não sabe durante quanto tempo dura a imunidade induzida por vacinas, esperamos que seja muito, mas não sabemos, quem foi vacinado primeiro pode perder a imunidade até se imunizar todos os extratos da população. Por isso a vacinação em massa é muito importante”, disse à RFI o médico Alexandre Cunha, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O governo havia falado que em maio os grupos prioritários, como idosos, portadores de comorbidades e determinados nichos profissionais, estariam imunizados abrindo as doses para a população em geral. Mas o ministro da saúde, Marcelo Queiroga, disse que esse cálculo feito pela equipe do antecessor Eduardo Pazuello era otimista demais para a realidade de percalços que o país enfrenta atrás de insumos. Queiroga afirmou, por sua vez, que há todo um esforço para encurtar a nova previsão.

Jovens com sequelas

O cenário ainda é catastrófico, mas os números indicam certa estabilização, pouco abaixo do ápice de mais de 4.000 mortes diárias a que o país assistiu semanas atrás. Não se sabe se o fatal patamar vai descer mais e em qual velocidade, ou se vai se manter num platô assombroso de três mil mortes por dia.

A covid-19 tem avançado sobre os mais jovens, com crescimento superior a 1.000% nas internações de pacientes entre 30 e 59 anos, segundo levantamento epidemiológico da Fiocruz, na comparação entre a primeira semana de janeiro e a última de março deste ano. Até a faixa etária entre 20 e 29 anos engrossa as estatísticas, com aumento de quase 300% nas mortes desse grupo em São Paulo entre fevereiro e março, apontam dados da Secretária de Saúde do estado. E alguns dos que sobrevivem, especialmente aos casos mais graves, carregam as sequelas da doença por vários meses.

“Os jovens, devido ao tempo maior de internação, até porque em tese têm mais chance de lutar e sobreviver à doença, estão tendo sequelas pós covid. O que seria? Eles estão tendo fraqueza muscular, perda de massa muscular, dificuldade de respiração. Às vezes um descontrole nos batimentos cardíacos, ficam alterados. Mas também estou vendo casos mais graves após a infecção. Um exemplo é trombose no coração. E isso em pessoas extremamente saudáveis, até atletas, que praticavam atividade de alto nível, mas que acabam tendo essa condição pós Covid.

E a maioria deles fica surpresa porque não esperava, pela idade e condição física, que seria acometida com esse tipo de sequela”, alerta o educador físico Vilter Moraes, que tem trabalhado na recuperação de pacientes em Jales, interior de São Paulo.

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